Observo meu reflexo no espelho. Lá estão as sombras sob os
olhos de sempre, mas parecem mais profundas hoje. Tento sorrir para a garota
com expressão entediada que me encara, mas ela não sorri de volta. Tudo bem.
Mais um dia da jornada. Mentalmente calculo se estou criando drama demais da
situação que me encontro. Qual a minha definição de drama? Dar a verdadeira importância
ao que sinto e me dar o direito de discordar, achar ruim, fazer birra e careta?
Esclarecer minhas insatisfações?
Passei a aceitar meus “dramas” e começar a parar de não
querer chatear as outras pessoas. Por vezes, de tanto se preocupar em não chatear,
você acaba sendo uma chateação do caralho. Pode soar arrogante de se dizer, mas
não me importa mais o que vão pensar sobre mim, desde que (ênfase nesse desde
que) eu mesma esteja satisfeita com essa entropia mental, emocional, psicológica
e física que me caracteriza. Se eu estou satisfeita? Não. E é exatamente isso
que me entedia.
Cá estou trancada dentro de um cofre, localizado numa sala
protegida, no subsolo de um prédio vigiado ininterruptamente. O vigia é o medo.
A proteção, as experiências. Dentro da minha bolha de tédio calculo passos das
pessoas ao redor, e acerto. Nenhum erro até agora. Ninguém me surpreende. Não
tenho vontade de sair, não tenho vontade de dar oportunidades às pessoas de me
mostrarem que eu estou errada e que não serei capaz de calcular os passos
delas, porque sei que serei capaz e o tédio vai ser maior ainda. Tenho consciência
de que essa situação é “errada”, que posso estar perdendo tempo, e não dou a mínima.
Pra mim é absolutamente necessário esse trecho da jornada, e a “perda de tempo”
maior se caracteriza em projetar anseios pessoais nos outros e se frustrar de não
te-los atendidos. Foram muitos anos vivendo pequenas ilusões sem me valorizar.
Hoje não tenho medo de ser egoísta, não tenho medo de julgamentos e não tenho
medo de me isolar.
Estou vivendo o clichê de “aprender a me amar” e não posso
dizer que estou me amando. Eu sou chata pra cacete. Tenho pena de quem teve que
suportar tudo isso. Foram muitos anos representando uma menina que não era eu o
tempo todo, e também frustrando os outros ao descobrirem toda a escuridão que
guardava pra mim e descarregava de uma só vez quando não suportava mais
sozinha.
Posso não ter aprendido muito ainda, mas caminhei por trilhas que sei não
serem as corretas. Aprendi que não preciso ter medo de ser eu mesma, a ter um mínimo
de sanidade emocional, não fazer cosplay de Atlas e que algumas palavras num
blog de mimimis na internet ajudam a aliviar as olheiras da menina entediada
que estava me olhando agora pouco.