Voltava pra casa depois de mais um dia corrido. Já era quase meia noite, seu corpo estava cansado, sua mente fervilhando por conta da faculdade. "Está quase acabando", dizia pra si mesmo todo santo dia. Se fosse listar os problemas atuais, passados e futuros em ordem crescente ultrapassaria facilmente a marca de mil, mas o ritual diário era evitar ao máximo mentalizá-los no caminho pro descanso do lar.
Pegou seu inseparável fone de ouvido, era mágico se perder nas ondas de suas canções favoritas.. não costumava olhar muito as pessoas, mas quando as olhava estavam no modo mute, todas embaladas pela música da vez do player, embora não soubessem.
Começou a tocar Silent Lucidity, e seu olhar ficou perdido no horizonte que passava veloz através da janela... aquele metrô estava cada dia mais parecido com um compartilhamento .zip de pessoas, mas não importava... Depois que ela apareceu tudo pareceu ficar mais simples, por que será que as pessoas reclamavam tanto de coisas tão pequenas? O que é ser amarrotado, açoitado por chicotes, jogado aos leões, perto do poder de ser capaz de faze-la sorrir e ver todo ambiente sendo iluminado?
Descobriu que não importava o tamanho da merda que acontecia no seu dia, a estrela principal da sua mente era ela, como se até mesmo no seu cérebro ela fosse capaz de deixar tudo bem só por estar ali. Sabia que ela estaria em algum lugar do caos daquela cidade; e isso de certa forma o confortava... daria um rim pra poder ter o poder de teletransporte, só pra chegar onde ela estava e lhe dar um abraço infinito e um beijo de transfusão de alma, mas não tinha esse poder... conformava-se com as marteladas espartanas no peito que eufemicamente podiam ser chamadas de saudade.
O problema é que ela não pertencia a ele. Afinal quem pertence a alguém nesse mundo? Tolos daqueles que pensam assim. Por um momento desejou que fosse desse jeito que funcionasse: os dois se amam, assinam um contrato com garantia vitalícia de posse mútua e nada daria errado. Mas pessoas, ao contrário das coisas, possuem vontades, sonhos, passado, problemas, defeitos, dúvidas; e nem sempre tudo isso combina. Ou nunca.
Não importava o rumo ou as consequências da vida perante os dois, o lugar dela em seu coração estava intacto. E se o coração era dele, e era lá dentro que ela estava confortavelmente acomodada, então ela pertencia a ele sim senhor. Sentiu-se infinitamente bem perante esse fato. Era um fato, ele tinha acabado de decretar.
Acabou a música. Percebeu que tinha passado três estações de onde deveria descer.
Sorriu... " não importa ", pensou.