Lá estava eu me imaginando ao chegar o fatídico dia. Só de pensar que teria que encará-la novamente meu interior se inflava de sensações que eu não saberia ao menos descrever. Um misto de angústia, tristeza e ansiedade... escrever as considerações finais de uma história tão intensa não deve ser agradável para ninguém afinal.
No início da história, aquele ser parecia algo ainda sem definição, porém era facil ver que emanava dele um brilho admirável. Sua presença sempre me contemplava com sentimentos positivos, mesmo quando ainda não éramos parte um do outro. Estava ela sempre alí, constante, viva, nunca despercebida. Num ato cheio de duvidas me permiti a conhecer ainda mais esse ser ainda indefinido por completo. Os anos se passaram e tudo que era desconhecido surgiu diante dos meus olhos como algo divino, me fazendo sentir o até então desconhecido amor indiscutível, e aquele ser ascendeu à posição de um anjo na minha vida... só poderia ser assim. Sempre olhando por mim, cuidando, acalentando, ensinando... perdoando. Com todo aquele brilho de um ser vivo admirável ela me inspirava, como aqueles anjos que inspiravam antigas canções que até hoje são entoadas pelos humanos apaixonados.
Porém, em toda minha vida eu ouvi e "aprendi" que a perfeição cabe somente à Deus e seu filho, e assim como os anjos que já choraram por perderem seu lugar no céu, ela se rendeu ao resquício de imperfeição que lhe restava. Sua luz deixou de emanar, sua vontade de viver que antes era inspiração se tornou controversa, e toda aquela admiração que um dia senti se transformou em angústia de ver o meu anjo caído, sem poder nem ao menos estender a mão para ajudar.
Olhar novamente para a face da pessoa que um dia teve um lugar dentro de mim como um anjo da guarda foi tudo senão inesperado. Naquele momento as cores cessaram, as melodias deixaram de ser entoadas e nada se sentia além da angústia de vê-la daquela forma.
Mas quem pode garantir que essa não é uma escolha lúcida? Dizem que alguns anjos renegaram aos céus por uma simples fantasia de viver o desconhecido. E quem pode garantir que a consequência disso é a mesma realidade triste e sem vida que eu vejo? Quem poderá determinar a felicidade de outrém? Alguém se arrisca?
Minha felicidade nesse momento se reserva ao fato de ter encarado face-a-face algo que dentro de mim sempre será sagrado e mesmo assim lidar com a triste realidade sem esmoecer, sem fraquejar ou se amargurar. A força que procurei no meu interior ao longo desse ano finalmente se manifestou, quase que por completo. Agora sim eu sinto que finalmente posso dizer... Adeus, meu anjo.